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Hugo Guedes de Souza, Presidente da Anfarmag

Por: Hugo Guedes de Souza - Presidente Anfarmag

21/03/2008

Entrevista concedida à repórter Silvana Orsini - Gazeta Mercantil

São Paulo, 20 de março de 2008 - Criada em 1986, a Associação Nacional de Farmacêuticos Magistrais (Anfarmag) representa hoje 70% das farmácias de manipulação - das 5.500 registradas nos Conselhos Regionais existentes no País -, 12 mil lojas e 17 mil farmacêuticos profissionais. À frente da entidade desde 2005, o presidente da Anfarmag, Hugo Guedes de Souza, promete transformar as farmácias do segmento em uma central de negócios para oferecer preços melhores aos clientes. Por enquanto, o executivo diz que não tem como contabilizar resultados, tais como faturamento ou dimensionar mercado, mas está trabalhando para isso.

Para Guedes de Souza, afirmar que o medicamento manipulado representa de 5% a 8% do mercado farmacêutico é um mito. Também não acredita que o segmento tenha tirado espaço do genérico - mercado de US$ 3,5 bilhões. Ao contrário, o preço do medicamento genérico chega a custar até 60% menos do que o de referência. E o que antes era uma verdade - que o medicamento manipulado era mais barato do que o de marca ou similar -, hoje também já é um mito.

Em entrevista exclusiva à InvestNews, Guedes de Souza, diz que foi a farmácia de manipulação que perdeu espaço para o genérico, mas enfatiza que o segmento tem lugar cativo na dermatologia e vem conquistando a área odontológica, fitoterápica, homeopática, cosmetológica e também a veterinária (com medicamentos de humanos para animais de pequeno porte), atividade na qual os Estados Unidos estão muito à frente.

O medicamento manipulado caminha ainda para expansão no nicho que compreende crianças e idosos, principalmente com anti-hipertensivos - produtos que não oferecem dosagem específica para esse público -, e com as drogas órfãs (medicamento para doenças raras e que atende a um número pequeno da população).

InvestNews - Qual a importância da farmácia de manipulação?

Hugo Guedes de Souza - A farmácia de manipulação exerce, hoje, um papel importante no cuidado com a saúde. O Food and Drug Administration (FDA) reconhece a importância desse segmento e apóia a manipulação de medicamentos de acordo com a legislação vigente. Apesar de o FDA acreditar que algumas farmácias estão fabricando em vez de manipulando, há uma evolução neste ponto de vista. Não é possível ficar sem as farmácias de manipulação de qualidade com farmacêuticos se dedicando a cuidar de seus pacientes com produtos individualizados e específicos.

InvestNews - Qual a diferença do medicamento magistral ou manipulado?

Hugo Guedes de Souza - Magistrais ou manipulados são medicamentos prescritos pelo médico e preparados para cada caso, com indicação de composição qualitativa e quantitativa, da forma farmacêutica e da maneira de administração.
A legislação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) identifica o termo Preparação Magistral para este produto, sendo o medicamento preparado mediante manipulação em farmácia, a partir de fórmula constante de prescrição médica.
A Anfarmag define como Processo Magistral a preparação, a mistura, processamento, embalagem ou rotulagem de droga ou dispositivo, como resultado de uma prescrição de profissional habilitado. A manipulação se caracteriza pelo preparo de fórmulas a serem vendidas ou dispensadas na própria farmácia e não a terceiros. A manipulação de fórmulas também inclui a preparação de medicamentos ou dispositivos em antecipação a uma prescrição.

InvestNews - Quanto o mercado de medicamento manipulado movimenta? Qual a participação do segmento na indústria farmacêutica? Há dados estatísticos desse segmento?

Hugo Guedes de Souza - Não temos essa informação. Em 1998, a Anfarmag contratou uma empresa para fazer um censo sobre o segmento e essa foi a única pergunta que não foi feita. Se tivéssemos questionado as farmácias sobre faturamento ou volume de vendas, os donos das lojas não teriam respondido ao questionário.
No entanto, com essa pesquisa foi possível descobrir que em 1998 havia 2.100 farmácias no Brasil. Agora temos 5.500, 12 mil lojas, 70 mil empregos e acreditamos que 80 milhões de usuários se beneficiam dos produtos de manipulação, segundo estudo encomendado pela Anfarmag. As farmácias de manipulação são micro e pequenas empresas, cujo número de funcionários não ultrapassa a 20.

InvestNews - Há diferença entre farmácia e drogaria?

Hugo Guedes de Souza - Só no Brasil há drogarias. No resto do mundo existem farmácias. A farmácia é aquele estabelecimento que pode manipular um medicamento e o produto só é vendido com prescrição médica. À farmácia é permitida a venda de medicamentos manipulados, genéricos, de prescrição e produtos correlatos à saúde (como capas para colchão antiácaros, por exemplo). Tem ainda um local para aplicação de injeções e conta com no mínimo dois farmacêuticos. A drogaria não pode manipular medicamentos. Ela apenas um dispensador de medicamentos.

InvestNews - Os medicamentos manipulados são controlados pelo governo?

Hugo Guedes de Souza - Não, mas a vigilância sanitária nos controla em dois aspectos. O primeiro deles é a inspeção anual, igual àquela feita nas indústrias. A nossa legislação é coisa de 2000, quando uma Resolução obrigou-nos a nos adequar a um sistema de qualidade com uma série de testes. Em 2002, a Anvisa fez a Legislação de Boas Práticas de Manipulação no País. Acredito que o Brasil é o único país do mundo a ter uma legislação tão forte. Nos outros países, a manipulação não tem essa legislação tão forte quanto ao controle qualidade.
Desde o recebimento da matéria-prima fazemos uma série de procedimentos que são registrados e ficam arquivados para controle. Essa análise é feita anualmente e se houver algum problema com o produto, a análise é repetida até que se identifique a causa.
Cada farmácia faz o controle de qualidade da matéria-prima. No entanto, a Anfarmag desenvolveu um software onde são armazenadas as informações sobre as análises das matérias-primas. Isso facilitou e barateou os custos das análises porque cada farmácia faz uma análise de determinada matéria-prima a cada mês e disponibiliza o resultado nessa ferramenta que pode ser consultada pelas demais farmácias. Assim, em um ano e meio conseguimos fazer 23 mil análises de matéria-prima.

InvestNews - De onde vem a matéria-prima? Existe rastreamento ou teste de qualidade?

Hugo Guedes de Souza - Grande parte da matéria-prima é importada e parte é nacional. O estoque mínimo é baseado na rotina regular observada nos padrões de prescrição. As etapas do processo magistral são registradas de forma a garantir a rastreabilidade desde o produto final até as matérias-primas e embalagens que o compõem, com informações que demonstrem o sistema de qualidade envolvido na preparação.
A rastreabilidade do processo permite que qualquer desvio na preparação possa ser evidenciado, possibilitando a rápida ação corretiva e preventiva. Os registros são mantidos por períodos estabelecidos na legislação.
O sistema de qualidade do processo magistral inclui normas de aquisição, transporte e armazenamento de insumos e embalagens, normas de higiene e conduta, treinamento dos profissionais envolvidos e demais normas de qualidade de processo e atendimento às necessidades dos usuários dos serviços da farmácia.

InvestNews - Em que os medicamentos industrializados são diferentes?

Hugo Guedes de Souza - A indústria tem uma fórmula padrão e produz milhões de unidades daquela fórmula. A farmácia de manipulação só manipula produtos prescritos pelo médico, na dosagem especificada para determinado paciente e na forma mais adequada às necessidades daquele paciente (cápsulas, xaropes, comprimidos).
A indústria quando fabrica um medicamento, olha a fórmula. São milhares de medicamentos com a mesma fórmula. Já a farmácia de manipulação olha o processo de fabricação. Os medicamentos são feitos um a um, artesanalmente. Uma das vantagens do medicamento manipulado é que ele comporta a associação de vários medicamentos em uma só cápsula, por exemplo. São produtos apropriados para pacientes com doenças crônicas e para os que fazem uso de outros medicamentos ao mesmo tempo - os chamados pacientes multicamentosos.

InvestNews - Há medicamentos manipulados para a Aids e hormônios, por exemplo?

Hugo Guedes de Souza - Trabalhamos com grandes classes de drogas, mas não estamos aptos a manipular anti-retrovirais. Podemos agora manipular hormônios de uso externo e até antibióticos.
Algumas áreas médicas não conseguem viver sem medicamentos de manipulação, como é o caso da dermatologia. Muitos dos produtos dermatológicos se oxidam rapidamente. Não têm vida longa e isso não interessa à indústria que precisa que o medicamento dure três, quatro, seis anos...
As primeiras farmácias de manipulação a entrar no mercado durante o 'boom' dos anos 80 atenderam principalmente à dermatologia. Nos últimos anos, com a aceitação do conceito de farmácias de manipulação ou magistral - pela população em geral, como também pela classe médica - as farmácias mais experientes têm tido a oportunidade de definir melhor suas áreas de atuação, direcionando o esforço de marketing e investimento apropriadamente. Agora, as farmácias já atendem a maioria das especialidades clínicas. Dermatologia continua sendo a especialidade mais importante para estas farmácias, seguida pela endocrinologia e a medicina ortomolecular. A reumatologia e a clínica geral se destacam por serem especialidades cujos médicos prescrevem ou estão adquirindo a prática de prescrever fórmulas. Há uma tendência de queda de prescrição de fórmulas de endocrinologia, que pode ser atribuída a sucessivas portarias que proibiram o aviamento de certas substâncias anorexígenas utilizadas em grande parte das fórmulas para esta especialidade.
Também manipulamos as chamadas drogas órfãs (medicamento para doenças raras e que atende a um número pequeno da população). Em determinado momento a indústria deixou de fabricar esses medicamentos porque atendem a um número pequeno da população. No entanto, a maioria dos países europeus e americanos incentiva a indústria a produzir esse tipo de medicamento porque apesar de ser utilizado por um número reduzido de pessoas traz grande impacto na saúde pública. Um exemplo de doença rara é a doença de Wilson. Trata-se de pessoas que têm muito cobre no organismo e isso é tratado com acetato de zinco e não existe um produto industrial para tratar esse mal, a não ser medicamento manipulado.
Há ainda os medicamentos manipulados injetáveis. Nessa área específica existem poucas farmácias no Brasil. Em São Paulo, por exemplo, há três ou quatro farmácias apenas. Essas farmácias trabalham muito mais para hospitais do que para o público em geral.

InvestNews - Quais os mitos que cercam a farmácia de manipulação?

Hugo Guedes de Souza - O primeiro deles é que o Brasil é campeão de anorexígenos e que isso é responsabilidade da farmácia de manipulação. Isso é uma inverdade. Outro é que representamos de 5% a 8% da indústria farmacêutica e estamos tomando espaço do genérico. A farmácia de manipulação existia muito antes dos medicamentos industrializados e do genérico. Com a revolução industrial os manipulados quase desapareceram. Mas os medicamentos industrializados também não eram acessíveis à população de baixa renda e isso fez com que o Brasil partisse para a fabricação de medicamentos similares. No final da década de 90, no entanto, tivemos um 'boom' no mercado farmacêutico. Em 1998 contávamos com 78 faculdades de farmácias, hoje temos 300. Em um espaço de oito anos passamos de 2.100 farmácias para 5.500. Nesse mesmo tempo apareceu o genérico que a cada dia baixa de preço e então a farmácia de manipulação passou a não manipular mais medicamentos para os quais existem genéricos. Fica mas barato comprar genérico. O plano cruzado, em 1986, também contribuiu com o ressurgimento da farmácia de manipulação. Tivemos o maior desabastecimento, tanto em gêneros alimentícios quanto em medicamentos. Naquela época, me lembro do desespero dos cardiologistas para receitar o medicamento propanalol que desapareceu do mercado. E, assim, buscaram mais uma vez a manipulação. Os outros quatro planos economicos que se sucederam tiveram controle de preços, provocando a retração da indústria farmacêutica e abrindo brechas para o avanço da manipulação.

InvestNews - Como a farmácia de manipulação apresenta seus produtos ao mercado? Existe a figura do propagandista?

Hugo Guedes de Souza - Sim. Os donos de farmácias de manipulação também fazem visitas mensais aos médicos, dentistas e veterinários e colocam à disposição do médico o conhecimento farmacêutico caso precise. A aproximação com o médico é grande. Falamos com ele o tempo todo.
No ano passado, a Anfarmag inaugurou uma nova etapa na comunicação entre o setor e a classe médica com o lançamento do Guia de Prescrição, um material de apoio contendo todas as regras para elaboração de receitas de controle especial e preenchimento de notificações. O material é direcionado a médicos, veterinários e cirurgiões-dentistas.

InvestNews - A entidade planeja uma central de negócios. O que isso significa?

Hugo Guedes de Souza - Trabalhamos para a implantação de um associativismo farmacêutico que permitirá às milhares de farmácias magistrais, estado por estado, deixar o papel de participantes para se transformarem em relevante 'player' do mercado. Temos de deixar de lado o papel de quem sofre os efeitos do jogo comercial para sermos os influenciadores de como serão as regras. Para a Anfarmag esta é a característica mais importante da nova farmácia de manipulação magistral que estamos construindo. Uma farmácia capaz de construir uma união comercial do setor e sua transformação numa grande central de negócios, de forma a ser a maior rede de negócios farmacêuticos do País.

InvestNews - O que e como a farmácia de manipulação está fazendo para se aperfeiçoar?

Hugo Guedes de Souza - A Anfarmag iniciou em 2006 a implantação do Sinamm (Sistema Nacional de Aperfeiçoamento e Monitoramento Magistral). O sistema foi estruturado para propiciar o desenvolvimento e o aperfeiçoamento do segmento farmacêutico magistral, para aliar excelência técnica, alto padrão científico, rígidos controles de segurança e as melhores práticas gerenciais ao dia-a-dia da farmácia.
O sistema visa ainda ao apoio na preparação e capacitação da farmácia participante para a Acreditação Farmacêutica Magistral, que será desenvolvida por meio de convênio a ser firmado entre a Anfarmag e a 'ONA' - Organização Nacional de Acreditação, preferencialmente dentro dos programas de saúde da Anvisa e de incentivos do Sebrae.

InvestNews - Como estão tratando a educação continuada?

Hugo Guedes de Souza - Também por meio de TV, um canal fechado. Instalamos antenas em cerca de 62 lugares do País. Queremos nivelar o conhecimento. No ano passado treinamos cerca de quatro mil farmacêuticos e 13 mil funcionários de farmácias. Nosso objetivo é que todos os profissionais falem uma mesma língua. Nosso primeiro treinamento foi em gestão de qualidade. A intenção também é dar treinamento técnico.

 

Fonte: http://www.gazeta.com.br/integraNoticia.aspx?Param=25%2C0%2C1694830%2CUIOU

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