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Preço de remédio varia até 1.400% em drogarias de SP, informa Procon

09/02/2010

Pesquisa com mais de cem medicamentos foi realizada em drogarias. Secretário estadual da Saúde diz que população deve utilizar genéricos.

Pesquisa divulgada nesta terça-feira (9) pela Fundação Procon revela que a diferença de preços entre um mesmo medicamento na cidade de São Paulo pode superar 1.400%.

A primeira pesquisa do gênero realizada pelo órgão entre os dia 19 de 21 de janeiro envolveu 103 medicamentos em 15 unidades de drogarias das cinco regiões da cidade (norte, sul, leste, oeste e centro). Os remédios selecionados para a pesquisa foram determinados pela Secretaria Estadual de Saúde.

Confira a íntegra da pesquisa

A maior diferença de preços (1.415%) foi verificada na caixa com 25 comprimidos do medicamento Hidantal (fenitoína), um anticonvulsivo. O menor preço foi de R$ 0,40 (para o genérico) e o maior, R$ 6,06 (para o medicamento referência).

A caixa com 20 comprimidos do antiinflamatório Voltaren (diclofenaco sódico) custou R$ 1,89 em um estabelecimento do centro da cidade e R$ 20,12 em uma farmácia da região oeste (diferença de 964%), segundo a pesquisa.

 

Outra grande diferença apontada pelo Procon foi a do Tylenol (paracetamol), usado para dores e febre. O vidro com 15 ml do genérico custou R$ 1,49 e o do medicamento referência, R$14,59 (diferença de 879%).

 

Procurada pelo G1, a assessoria da Associação Brasileira de Farmácias e Drogarias (Abrafarma) informou que o presidente da entidade deve se manifestar sobre o assunto nesta terça.

De acordo com a Fundação Procon, vinculada à Secretaria Estadual da Justiça, o levantamento mostra a importância da pesquisa de preços entre os estabelecimentos antes de o consumidor efetivar a compra.

"Os valores dos produtos podem ter variações consideráveis de um estabelecimento para outro, inclusive por ocasião de descontos especiais e promoções", segundo o órgão.

A pesquisa mostra ainda que os genéricos são, em geral, mais baratos. "Mas é bom lembrar que mesmo um genérico pode apresentar preços diferentes", diz o Procon em nota.

O secretário estadual de Saúde, Luiz Roberto Barradas Barata, disse que a população não deve "temer" a grande diferença de preços entre os genéricos e os medicamentos referência.

"O genérico só é autorizado (pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária, Anvisa) se for idêntico. O consumidor deve consumir sempre o genérico. E existe o similar, que pode ser um pouco diferente. Não podemos recomendar que use similar, mas podemos recomendar o genérico", afirmou.

Segundo o secretário, o governo do Estado tem uma resolução que determina aos médicos da rede pública que receitem os remédios apenas pelo princípio ativo e não utilizem nas receitas o nome comercial de medicamentos. Para o secretário, o consumidor deve exigir a atitude do médico.

 

"Se o médico prescrever o genérico, ele (o consumidor) não vai desconfiar. Remédio não é como outros itens, a gente toma aquele que o médico prescreve. No estado de São Paulo isso vem acontecendo, o mercado de genéricos vem aumentando", afirmou Barradas.

 

De acordo com o secretário estadual de Justiça e Cidadania, Luiz Antonio Guimarães Marrey, "o consumidor pode ficar desconfiado pela diferença de preço, mas é nosso papel reiterar que o importante é que [o medicamento genérico] seja do mesmo princípio e pode comprar sem receio".

 

O secretário Marrey disse ainda esperar que os médicos não prescrevam os remédios pela marca, simplesmente por influência dos laboratórios.

 

"Esperamos que os médicos jamais se ponham ao serviço vil de serem influenciados pelos laboratórios", declarou.


Segundo Marrey, a pesquisa feita pela Fundação Procon na capital poderá ser ampliada para outras regiões do Estado. O levantamento será bimestral e ficará disponível no site da Fundação Procon.

 

Armas e narcotráfico

Após a apresentação dos dados, o secretário de Saúde, Luiz Roberto Barradas Barata, chegou a comparar a indústria farmacêutica à indústria de armas e ao narcotráfico ao falar sobre a grande diferença de preços.

 

"Existem três grandes mercados, muito poderosos e difíceis de controlar: de armas, o narcotráfico e o de medicamentos. Os três são extremamente poderosos, fazem propaganda, divulgação. Mas nós, consumidores, não consumimos armas, quem consomem são os países. E os narcotraficantes deitam e rolam. Nessa relação, aconselhamos às pessoas que comprem [medicamentos] genéricos", disse o secretário.

 

Mais tarde, em conversa com jornalistas, questionado sobre qual a semelhança entre o setor farmacêutico com o narcotráfico e a indústria de armas, o secretário disse: "As três têm em comum o poder de fixar seus preços. (...) Não dá para fabricar arma no quintal e nem medicamento em casa. A gente fica na mão da indústria. A população, ao saber a diferença de preços, pode se defender".

O Sindicato da Indústria de Produtos Farmacêuticos no Estado de São Paulo
(Sindusfarma) chamou a comparação de "infeliz".

"O Sindusfarma estranha que o senhor doutor secretário de Saúde desconheça o importante e indispensável papel dos laboratórios farmacêuticos, responsáveis pelo desenvolvimento e a fabricação de produtos que salvam vidas e estão associados aos enormes avanços da medicina no tratamento de doenças graves e complexas. Além de fazer uma comparação infeliz, o secretário se contradiz. Defende o uso de medicamentos genéricos (introduzidos no país graças à visão do deputado Eduardo Jorge e do incentivo do então ministro da Saúde José Serra), sem se dar conta de que este segmento foi viabilizado pelo empenho e os pesados investimentos da mesma indústria farmacêutica que ele tenta, sem qualquer fundamento, desqualificar", rebateu o sindicato em nota.

 

A Associação da Indústria Farmacêutica de Pesquisa (Interfarma) também criticou o secretário.

"Em relação às declarações do secretário estadual de Saúde de São Paulo, Luiz
Roberto Barradas Barata, comparando a indústria farmacêutica à indústria de armas e ao narcotráfico, entendemos que este é um excelente exemplo do porque a discussão sobre saúde pública no Brasil não avança para um patamar mais moderno e racional. A consequência disso é que continuamos com os velhos problemas de sempre. O secretário foi destemperado, injusto e inverídico. Os milhões de pacientes brasileiros, seguramente, ganhariam mais se a energia do secretário estivesse voltada, por exemplo, a ações para redução de tributos sobre os medicamentos."

Sobre a elevada diferença de preços, o Sindusfarma disse que a elevada diferença de preços no setor tem uma explicação "econômica, clara e transparente".

"O Sindusfarma não analisou a pesquisa comparativa de preços do Procon de São Paulo, mas é fato que há diferenças de preços entre medicamentos do mesmo tipo, resultantes da saudável concorrência de mercado. Essa concorrência, aliada às estratégias comerciais de laboratórios farmacêuticos, atacadistas e farmácias, cria mercado favorável ao consumidor em face dos descontos."

 

Fonte: G1

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